Um Convite

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23 de março de 2011

Meu Querido Rubem Alves - O ALUNO PERFEITO -

O ALUNO PERFEITO

Rubem Alves é educador, escritor e colunista da "Folha de SP", onde publicou este texto:


Era uma vez um jovem casal que estava muito feliz. Ela estava grávida, e
eles esperavam com grande ansiedade o filho que iria nascer.

Transcorridos os nove meses de gravidez, ele nasceu. Ela deu à luz um lindo
computador! Que felicidade ter um computador como filho! Era o filho que
desejavam ter! Por isso eles haviam rezado muito, durante toda a gravidez,
chegando mesmo a fazer promessas.

O batizado foi uma festança. Deram-lhe o nome de Memorioso, porque julgavam
que uma memória perfeita é o essencial para uma boa educação. Educação é
memorização. Crianças com memória perfeita vão bem na escola e não têm
problemas para passar no vestibular.

E foi isso mesmo que aconteceu. Memorioso memorizava tudo que os
professores
ensinavam. Mas tudo mesmo. E não reclamava. Seus companheiros reclamavam,
diziam que aquelas coisas que lhes eram ensinadas não faziam sentido. Suas
inteligências recusavam-se a aprender. Tiravam notas ruins. Ficavam de
recuperação.

Isso não acontecia com Memorioso. Ele memorizava com a mesma facilidade a
maneira de extrair raiz quadrada, reações químicas, fórmulas de física,
acidentes geográficos, populações de países longínquos, datas de eventos
históricos, nomes de reis, imperadores, revolucionários, santos,
escritores,
descobridores, cientistas, palavras novas, regras de gramática, livros
inteiros, línguas estrangeiras. Sabia de cor todas as informações sobre o
mundo cultural.

A memória de Memorioso era igual à do personagem do Jorge Luis Borges de
nome Funes. Só tirava dez, o que era motivo de grande orgulho para os seus
pais.

E os outros casais, pais e mães dos colegas de Memorioso, morriam de
inveja.
Quando filhos chegavam em casa trazendo boletins com notas em vermelho eles
gritavam: "por que você não é como o Memorioso?"

Memorioso foi o primeiro no vestibular. O cursinho que ele freqüentara
publicou sua fotografia em outdoors. Apareceu na televisão como exemplo a
ser seguido por todos os jovens.

Na universidade, foi a mesma coisa. Só tirava dez. Chegou, finalmente, o
dia
tão esperado: a formatura. Memorioso foi o grande herói, elogiado pelos
professores. Ganhou medalhas e mesmo uma bolsa para doutoramento no MIT.

Depois da cerimônia acadêmica foi a festa. E estavam todos felizes no
jantar
quando uma moça se aproximou de Memorioso e se apresentou: "Sou repórter.
Posso lhe fazer uma pergunta?" "Pode fazer", disse Memorioso confiante. Sua
memória continha todas as respostas.

Aí ela falou: "De tudo o que você memorizou qual foi aquilo que você mais
amou? Que mais prazer lhe deu?"

Memorioso ficou mudo. Os circuitos de sua memória funcionavam com a
velocidade da luz procurando a resposta. Mas aquilo não lhe fora ensinado.
Seu rosto ficou vermelho. Começou a suar. Sua temperatura subiu.

E, de repente, seus olhos ficaram muito abertos, parados, e se ouviu um
chiado estranho dentro de sua cabeça, enquanto fumaça saia por suas
orelhas.
Memorioso primeiro travou. Deixou de responder a estímulos.

Depois apagou, entrou em coma. Levado às pressas para o hospital de
computadores, verificaram que seu disco rígido estava irreparavelmente
danificado.

Há perguntas para as quais a memória não tem respostas . É que tais
respostas não se encontram na memória. Encontram-se no coração, onde mora a
emoção...

(Folha de SP, 24/1)


"Sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo. A última coisa que se pode sentir diante da 'eterna novidade do mundo' é tédio. O pensamento é uma criança que explora essa caixa de brinquedos chamada mundo. Pensar é brincar com os pensamentos." (Rubem Alves)

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